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- O tempo colonial não acabou -

A Alemanha é um país frio, seu povo também é, e os dois somente esquentam quando no seu racismo onipresente. Eis um lado do pensamento brasileiro sobre a cultura e política alemãs. Outro é: A Alemanha é o país mais desenvolvido do mundo, o que vem de lá há de prestar e é o espírito alemão e do primeiro mundo em geral que está faltando nesta terra miserável para que se acabem as nossas desordens política e económica.
Isto aqui é um sintoma do dilema brasileiro entre o espírito colonial e a luta permanente contra o mesmo, muitas vezes exagerada quanto às formas que ela toma. A quem já estiver se sentindo ofendido, peço desculpas, mas o exagero é tão virulento nesta questão toda, que dificulta deixar por fora umas pequenas provocações. Voltemos então ao tema! Na minha estadia no Brasil de fevereiro até agosto deste ano e, principalmente, durante o meu trabalho de docente na Universidade Federal do Ceará (UFC), me apareceram muitos exemplos desse dilema na consciência dos brasileiros. O exemplo da recepção do alemão é - para mim, que sou alemão - o mais flagrante. A visão mais intensa, contudo menos racional, é a do alemão organizado, eficiente, técnico, que sabe resolver qualquer problema melhor do que o brasileiro mais competente. Esta opinião, por mais incrível que pareça, introsou-se até nos círculos acadêmicos, isto é, até estudantes dos mais variados cursos deram a entender que assim pensavam. Esta visão, alias, vai junto com um grande apreço a tudo que vem do exterior, sendo a expressão da pouca avaliação e da pouca confiança em tudo que é brasileiro. Numa terra onde ja o menino na praça se orgulha frente aos seus colegas que tem um tenis importado, e onde é um símbolo de estatus ter um carro importado, e seja o mais vagabundo que existe, alí não surpreende realmente que também tem quem acha que o estudante alemão, que nunca teve nada a ver com o ensino do próprio idioma, é mais competente do que um professor brasileiro especializado nessa área e frequentador de muitos cursos sobre o ensino do mesmo. Além disso, é claro, na Alemanha não há corrupção, nem inflação nem nenhum desses vícios permanentes brasileiros. Para mim é incrível, como certos conhecimentos dos brasileiros são singulares e as conciências divididas. No mesmo meio estudantil, onde se postula reconhecer - com todo direito - que os multinacionais são responsáveis por grande parte da míseria brasileira, que a política salarial deles são algemas constantes no trabalho sindical, que o poder económico do primeiro mundo - representado em instituições internacionais tal como o FMI e o Banco Mundial - impede um desenvolvimento adequado da economia brasileira, seja através do jugo da dívida externa, seja através dos preços desproporcionados de matérias primas exportadas pelo tercero mundo relativo aos preços da alta tecnologia importada por ele, nesse mesmo meio estudantil esquerdista a visão, totalmente separada desses conhecimentos, de um primeiro mundo mais organizado e eficiente se não predomina, pelo menos coexiste latentemente, sem levar em consideração que um é o efeito do outro, que tudo de bom que se liga intuitivamente com o tal chamado primeiro mundo é efeito dessa realidade combatida em trabal-hos político e económico de todos os níveis. Pior é quando tentase reagir a isto aplicando outra vez coisa importada, dessa vez a ideologia. Há uma esquerda comunista muito forte no Brasil, que batalha engajadamente as teorias de Marx, Engels e Lenin. Como, porém, podese tentar aplicar uma teoria a um contexto totalmente fora daquele para o qual foi desenvolvido? Desde o tempo do Prestes os esquerdistas brasileiros orientam-se na ideologia alheia, pouco conforme com os fatos da realidade do país. Quem leu seu Marx sabe que ele achou que o desenvolvimento das forças produtivas era a base de qualquer socialismo, que o mesmo era impossível implantar numa terra agrícola, e isto o Brasil é por grande parte até hoje. O trabalho dos sindicatos está do mesmo jeito orientado nos modelos europeus com o efeito que - com seu corporativismo - está falhando da mesma forma que os sindicatos europeus estão falhando atualmente na fâse de recessão.
Sejam os modelos económicos durante a ditadura, sejam os de agora, seja a política do governo ou da oposição, até o próprio sistema político do presidencialismo, tudo orienta-se nos dogmas políticos e económicos do tal chamado primeiro mundo, isto é os EUA no setor económico e a Alemanha junto aos EUA no setor político.
Quanta coisa que faz sucesso no Brasil não vem, de uma forma ou outra, do exterior. Isto ja começa na força incrível que a televisão exerce. O programa que faz mais sucesso de todas as redes é o show da Xuxa. Ela, uma boneca loira toda artificial e produzida, que não tem nada a ver com um tipo brasileiro, chegou a ser uma das mulheres mais ricas do mundo numa terra onde 30% da classe média vai subindo à classe alta e o resto descendo à miséria, que ja deve constituir bem uns 50% da população do Brasil.O tenis que faz sucesso é importado, o carro também é, e no vinho colocase um nome francês para fazer pensar que vem da „terra do vinho“ mesmo. Parece que fora da MPB e da cachaça não há coisa nacional para ter bom éxito na avaliação dos brasileiros. A razão é um espírito colonial, ou seja o espírito do colonizado, que se manteve no povo brasileiro - ninguém sabe como - como uma característica profunda nas mais variadas áreas. Agora, 170 anos depois da independência do Brasil, o tal espírito, injetado nesse povo com tanto cuidado durante mais que trezentos anos de total dependência da „metrópole“ portuguesa, já estaria na hora de acabar com isto.
Que ninguém me diga que não tem condições financeiras. O Brasil é uma terra que tem um imenso potential em toda área. Seja no setor agrícola, seja industrialmente, seja quanto às riquezas de solo ou ao enorme potential de trabalho que nela existe - ela tem condições que fazem qualquer terra do tal chamado primeiro mundo ficar boquiaberta, sonhando com tal base para o desenvolvimento. O que falta são teorias e modelos brasileiros, desenvolvidos por brasileiros e para brasileiros, levando em consideração a realidade brasileira sem recorrer a fatos e teorias pensadas por outras pessoas em diferentes contextos. Claro que já existe isto também, como por exemplo tem o exemplo do círculo em volta de Cristóvam Buarque com suas publicações na editora Paz e Terra. Porém, são poucas aceitadas estas tentativas de livrar-se do paradigma primeiromundista, porque até para a esquerda dói admitir os próprios erros sempre feitos através da orientação em modelos alheios. Se, contudo, tiver a força e a coragem de repensar suas ideologias e o seu próprio papel no jogo todo, se tiver a liberdade de entrar em tentativas como as de C. Buarque, existirá um potential tão inimaginável neste Brasil, que aquele tal chamado primeiro mundo faria bem preparar se para uma redefinição das regras internacionais do jogo. Aí seria ela que tinha que tentar alcançar a terra que antes teve pouco apreço senão para os produtos alheios.

         Dirk Heinen

 

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Diese Seite wurde erstellt von Berenike Oesterle am 08.06.2002